O custo de não executar: quando as lideranças comerciais fracassam
Conheço bem essa situação. E o que mais me incomoda não é a resistência das pessoas. É a facilidade com que alguns gestores capitulam diante dela.
O custo de não executar:
quando as lideranças comerciais fracassam
A empresa decidiu estruturar sua operação comercial. Estudou o problema, definiu objetivos, desenhou processos, selecionou ferramentas, planejou a implantação e iniciou o treinamento das equipes. Não se trata de uma decisão improvisada, mas de uma mudança necessária para aumentar a produtividade, reduzir desperdícios e melhorar a capacidade de gerar receita.
A implantação começa e surgem as resistências. Alguns vendedores não querem registrar informações no CRM, outros questionam os critérios de qualificação, resistem às cadências de prospecção ou insistem em administrar suas oportunidades conforme hábitos individuais. A liderança percebe o desconforto e começa a flexibilizar o que havia sido estabelecido. Em pouco tempo, aquilo que deveria ser um novo padrão operacional se transforma em mais uma tentativa de mudança que não se concretiza.
Conheço bem essa situação. E o que mais me incomoda não é a resistência das pessoas. É a facilidade com que alguns gestores capitulam diante dela.
Toda empresa que pretende crescer precisa melhorar continuamente sua produtividade. Isso não acontece apenas contratando profissionais mais experientes, aumentando investimentos ou adquirindo novas tecnologias. A produtividade depende fundamentalmente da forma como a organização combina recursos, pessoas, ferramentas e atividades para produzir resultados. É nos processos que boa parte dessa combinação se materializa.
Na operação comercial, essa relação é econômica e financeira. Uma equipe de vendas consome recursos antes de produzir receita. Salários, comissões, tecnologias, marketing e prospecção representam investimentos que precisam gerar oportunidades, conversões, margem e caixa. Quando atividades são executadas sem critérios comuns, informações ficam dispersas e cada profissional trabalha à sua maneira, a empresa perde produtividade e capacidade de mensurar o retorno dos recursos empregados.
A implantação de processos comerciais procura justamente corrigir essas ineficiências. Especialização de funções, critérios de qualificação, gestão de pipeline, cadências de prospecção e acompanhamento de conversões são práticas consolidadas em operações comerciais de alto desempenho. Não foram criadas para atender preferências de consultores ou gestores. Foram desenvolvidas para melhorar a capacidade das empresas de transformar esforço comercial em receita.
Existe uma lógica organizacional por trás disso, adotada como referência no desenho de operações empresariais de classe internacional:
◼ Proposta de Valor
Primeiro, a empresa define o valor que pretende entregar ao mercado.
◼ Produto
Depois, estrutura o produto que materializa essa proposta.
◼ Processos e Ferramentas
Em seguida, estabelece os processos e as ferramentas necessários para produzir, comercializar e entregar esse valor. Aparecem juntos porque, em muitas atividades, são praticamente indissociáveis. Um CRM, por exemplo, só produz valor gerencial quando integrado a critérios, responsabilidades e rotinas de execução. Fora desse contexto, é apenas mais um software que a empresa paga para utilizar parcialmente.
◼ Pessoas
Finalmente, organiza e desenvolve as pessoas para executar e aperfeiçoar a operação.
Essa sequência estabelece uma consequência importante: não é a preferência individual de cada profissional que deve determinar como a empresa opera. É a necessidade de entregar valor ao mercado com produtividade e consistência que deve orientar sua organização.
E é justamente essa mudança que frequentemente provoca resistência.
Novos processos tornam informações mais acessíveis, estabelecem responsabilidades, criam padrões de desempenho e reduzem a dependência de controles individuais. O que antes era decidido informalmente passa a seguir critérios conhecidos. O relacionamento com determinados clientes deixa de ser tratado como propriedade particular. Atividades antes pouco visíveis passam a ser registradas e mensuradas.
Não é difícil compreender por que isso incomoda. A resistência frequentemente está associada ao comodismo e à preservação de pequenas zonas de poder. A implantação de processos comerciais não modifica apenas rotinas; ela também altera a distribuição informal de influência dentro da organização.
É nesse momento que a liderança precisa demonstrar por que existe.
Alguns gestores desejam os benefícios da transformação, mas não querem enfrentar os conflitos que ela provoca. Concordam com os processos enquanto estão no planejamento, defendem sua importância nas reuniões e participam dos treinamentos. Entretanto, quando a equipe reclama, começam as concessões. O preenchimento do CRM deixa de ser obrigatório, os critérios de qualificação tornam-se flexíveis e os indicadores passam a ser tratados como recomendações.
A mudança não fracassa necessariamente porque a equipe resistiu. Fracassa porque quem deveria conduzi-la decidiu não enfrentar a resistência.
Há uma concepção equivocada de liderança por trás desse comportamento. Muitos gestores acreditam que seu papel é preservar o conforto da equipe e evitar conflitos. Esquecem que conduzir mudanças significa, frequentemente, contrariar interesses, interromper hábitos e exigir comportamentos que não surgirão espontaneamente.
O líder que não está disposto a enfrentar conflitos necessários à evolução da organização não está preparado para liderar sua transformação.
Isso não significa implantar processos sem as pessoas. A execução precisa de clareza de propósito, planejamento, treinamento, acompanhamento e condições adequadas de trabalho. Quando existe dificuldade de aprendizagem ou adaptação, a liderança deve reforçar a capacitação e oferecer suporte.
Mas existe uma diferença entre dificuldade de execução e resistência deliberada.
Quando a organização oferece condições para a mudança e o profissional insiste em preservar hábitos, controles informais ou conveniências individuais, o problema deixa de ser treinamento. Passa a ser compromisso com as decisões da empresa. E, nesse caso, a liderança precisa agir, inclusive substituindo profissionais quando necessário.
Nenhum vendedor, gestor ou mesmo sócio deveria colocar seus interesses particulares acima de mudanças necessárias à produtividade e à competitividade da organização. A empresa não pode ficar refém de quem se recusa a acompanhar sua evolução.
O custo da capitulação aparece muito além da implantação frustrada. Pior: cada vez que a liderança recua, reforça a percepção de que decisões organizacionais podem ser neutralizadas pela resistência individual. Esse custo está:
- No capital investido sem o retorno esperado.
- Na continuidade do retrabalho.
- Na perda de capacidade gerencial.
- Na dificuldade de construir uma operação comercial que produza resultados consistentes.
Por isso, considero equivocada a pergunta que frequentemente aparece nessas situações: devemos implantar processos pela dor ou pelo amor?
Nem por um nem por outro. Processos comerciais se implantam com clareza de propósito, planejamento, treinamento e firmeza na execução. Não são facultativos nem dependem do conforto de quem deverá executá-los.
No final, muitas empresas não fracassam na implantação de processos porque suas equipes resistem, mas porque seus gestores permitem que a resistência prevaleça.
